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Consequências da expulsão dos Jesuítas – Por Serafim Derenzi

Com a retirada dos Jesuítas, a Capitania sofreu perda considerável na instrução, na catequese dos índios e na agricultura: uma organização que se desmoronava com prejuízos sem conta.

A pobreza, que tinha no Colégio e nas Aldeias amparo silencioso, ficou ao Deus dará.

Os índios, indolentes por índole, voltaram, em maioria, à vida primitiva. A catequese leiga foi fórmula utópica. Com o brandir do relho, sacudido pelos Capitães, apagava-se o “amai-vos uns aos outros” e o ódio renascia entre portugueses e nativos. A catequese é um apostolado que se abraça por amor a Deus e não função burocrática com horários e regulamentos.

Em 1771, os Puris atacam as minas de Castelo, debandando garimpeiros em fuga precipitada com mulheres e pertences. Quarenta e cinco anos depois, em 1816, o príncipe Wied Neuwied (4) se atemoriza com o relato do Padre João, de S. Fidélis, a respeito das atrocidades dessa tribo contra a população do Itapemirim. (5) Um negrinho fora encontrado morto sem braços e pernas. Nas margens do Itabapoona teve o príncipe naturalista conhecimento de outros casos de antropofagia. Os Puris, depois de matarem, na Muribeca, trinta bois e um cavalo, devoraram assado outro, criolo. A carne humana apetecia-lhes melhor do que a bovina. Até em Benevente, hoje Anchieta, o comandante do “quartel”, polícia de estrada, aviventava com relatos a selvageria dos índios da vizinhança.

Esses maus instintos tinham cessado havia muitas dezenas de anos, antes da retirada dos missionários. As Aldeias, cuja prosperidade lhes ganhou promoção a Vilas: Reis Magos, com o nome de Nova Almeida, em 8 de maio de 1758. (6) Reritiba, em 1° de janeiro de 1759, instalada com o nome de Vila Nova de Benevente a 14 de fevereiro de 1761, (7) hoje Anchieta, estavam, à época da passagem do príncipe alemão, em decadência pronunciada. Melhor sorte não lograram as Reduções e fazendas mantidas pelos inacianos: Muribeca, Ponta da Fruta, Taputera, Orobó, Jucu, Jucunema e a esplêndida Araçatiba, com seus engenhos, canaviais, igreja, residências e pastagens; Camboapina, ligada pelo canal-Rio Marinho, construído em 1716, com navio para transporte da produção de Araçatiba diretamente ao Porto dos Padres, evitando a passagem oceânica pela foz do Jucu. Abandonadas as benfeitorias de melhoria do solo, foram se transformando novamente em pantanais, cuja recuperação, após 1950, custou polpudas despesas ao D.N.O.S.

Goiabeiras, Carapina, Jacuí transformaram-se em carrascais de camará, onde havia hortaliças, milho, mandioca e olarias. Não perderam, hoje, embora os núcleos urbanos que se formam, seu aspecto de pobreza rural. Apesar de tudo, o maior prejuízo foi a falta de amor e disciplina ao trabalho. Os colonos do Espírito Santo, além de pobres, permaneciam naquela ignorância lusitana. O jesuíta evoluía nos métodos de cultivo do solo e estimulava os vizinhos de boa vontade. Sessenta anos depois da expulsão dos Jesuítas, Saint Hilaire e Neuwied, que percorreram a Capitania de sul a norte, pelo litoral, onde a densidade demográfica populacionava uma série de regiões, tiveram que comer farinha de mandioca, peixe e caças, para não jejuarem além do limite de sacrifício.

Ruínas dos Jesuítas em Anchieta

 

NOTAS

(4) Maximiliano-Príncipe Wied Neuwied — “Viagem ao Brasil”. Percorreu toda a costa do Espírito Santo, acompanhado de séquito numeroso de cientistas.

(5) Itapemirim — chamou-se Aldeamento de Caxanga.

(6) Rubim — Daemon. Cezar Marques.

(7) José Marcelino.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2017

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